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08/04/2012

Como fazer uma religião




Há um passo a passo simples para você inventar ou fomentar uma seita ou religião. Tais etapas são comuns a todas elas e demonstram um padrão não apenas de comportamento na sua criação, como também na mentalidade dos seus seguidores. Tome o manual abaixo como “a planta baixa das religiões”.

1. Escolha uma ideia poderosa – quase megalomaníaca – e de difícil acesso ao público leigo.
Pessoas costumam ser movidas por idealizações. Dificilmente você entregaria sua vida por algo que não tivesse uma expressividade em especial ou soasse grandioso. Provavelmente gastaria seu dinheiro com o carro do ano ou investiria seu tempo numa viagem dos sonhos.
O pensamento de seita precisa despertar um anseio maior – a felicidade eterna, a paz de espírito, o paraíso.

2. Eleja um inimigo comum.
A mente humana, no funcionamento mais básico e primitivo, opera sob os influxos do sistema cerebral reptiliano que rastreia potenciais perigos à integridade física e psicológica do sistema como um todo.
Este sistema só reconhece inimigos e aliados. Não há meio termo.
Os marqueteiros sabem muito bem como ativar o desejo de escassez das pessoas anunciando que um produto vai acabar, por exemplo. Assim, o consumidor vai lutar 1) contra a escassez e 2) contra o tempo. Hitler sabia muito bem como dar um direcionamento ao caos social, financeiro e político da decadência alemã na década de 20: o povo judeu. Qualquer desconfiança pessoal teria fim sob a alegação de uma raça intrusa e que despertasse um sentimento comum a todos (neste caso, o sentimento de se sentir ameaçado). Isso redirecionou as desconfianças em relação ao amigo preguiçoso e à esposa safadinha a outros “inimigos”. Seus olhos tinham um alvo certo e bastava atacar numa só direção.

3. Coloque uma meta altamente utópica, mas que seja um desejo de aspiração coletiva.
Se eu prometer a você aumento de salário, um braço mais musculoso ou uma viagem para Nova York, serei cobrado por isso entre três e seis meses. Se o resultado não for entregue no prazo, vou virar as costas para você dizer que é um embuste, que sou tratante.
Mas e se eu prometer algo impalpável, abstrato e com definição duvidosa? Isso é perfeito! Você correrá por anos a fio atrás daquilo e, caso não atinja o alvo, eu posso dizer que foi você que não mirou direito ou que colocou pouca vontade.
Com o passar do tempo, você realmente vai acreditar que a falha é sua. Afinal, sua auto-estima estará balançada e seu sentimento de culpa dominará suas próximas ações. Prato cheio para criar uma nova meta dentro da grande meta.

4. Crie uma comunidade em torno dessa ideia.
Uma pessoa que tem razoável bom senso sabe direcionar sua vida com ações ponderadas e com relativo controle para manter corpo saudável, finanças em ordem e vida familiar decente. Ela entenderá que parte dos desajustes naturais tem uma causalidade conhecida, afinal gastou demais, deu pouca atenção para os filhos ou exagerou nos doces. Qualquer mudança vai passar por reorientar sua vontade, ainda que sofridamente, naquela direção original. Outras pessoas (a maioria) costumam atribuir seus problemas a causas que estão além do seu controle, que vão de caos político a mágoa de Deus, por terem se portado mal naquela semana. Essas pessoas são muito vulneráveis a promessas espetaculares, pois são alimentadas pelo imediatismo, pelo desejo de resultados em curto prazo e de preferência sem esforço.
Junte no mesmo lugar várias pessoas que pensam assim e terá uma bela amostragem do que é o caos. Todas elas estão alimentando as ilusões umas das outras; afinal, se eu desencorajar o sonho dos outros, é o meu que está em risco.
A lógica é: eu não quero naufragar, então vou remar bem forte para que os outros alcancem os objetivos comigo.

5. Use métodos de controle dessa comunidade que regulem a integridade física, psicológica ou moral dos seus participantes e os diferencie do inimigo comum.
Geralmente, esses métodos se apresentam na forma de livros reveladores ou textos sagrados. Na prática, isso pode tomar formatos mais humilhantes, como testemunhos com exposição de fragilidades pessoais, coerção em relação a comportamentos inapropriados e até entrega de bens materiais.
Essa etapa é especialmente importante para diluir a identidade pessoal do seguidor na mentalidade de seita. Tal identidade não existe mais como vontade pessoal, mas como parte de um grupo. É aqui que podemos nos despedir do senso crítico e do livre-arbítrio.
Pense em termos de futebol: se eu fizer parte da Gaviões da Fiel, por exemplo, qualquer grande conquista do meu time será a minha, pois este é um mecanismo natural de associação de imagens. Os meus gostos definem quem eu sou e acho que, se meu artista favorito ganhar o Oscar, eu também fui premiado. Ser um pessoa diferenciada entre as outras é o que alimenta o mercado de consumo de luxo AAA. Ali não existe uma pessoa comum, só a fina nata dos endinheirados. Já imaginou aquela cena clássica nos Vigilantes do Peso? Se um gordinho perde os quilos necessários, ele é aplaudido; se ganhou peso, surge um silêncio de reprovação velada. Ninguém quer ficar perto do gordinho falido. O mesmo acontece numa seita, quando o fiel seguidor não se realizou ou obedeceu os comandos do líder em questão, pois surge uma reprovação a qual ninguém quer se submeter.

6. Invente um evento “cataclísmico” contra o qual todos devem estar preparados.
O sentimento de que algo vai acabar faz aumentar o desejo por aquilo. Afinal, a ideia de escassez valoriza o produto E quanto mais ameaçador for o evento, mais intenso é o treinamento e maior será o nível de sacrifício a ser realizado. O aguardo da ameaça cria na mente das pessoas um sentimento de coletividade associado com urgência e fragilidade. Isso diminui o valor que as pessoas têm e faz aumentar o passe do líder, pois ele conhece o método para apaziguar as sequelas do problema.
Se o mundo vai acabar, o líder tem o kit salvador; se é o juízo final, ele tem um acordo especial para preservar os seus prediletos, a fim de que o grupo que está sob sua guarda seja poupado de toda a catástrofe.
Mesmo no caso de Jim Jones, em que 900 seguidores cometeram suicídio, havia uma garantia: aqueles que se matassem seriam os escolhidos e quem fosse covarde e ficasse vivo queimaria no fogo do inferno. Funcionou.


7. Mostre-se como alguém que anteviu ou superou as barreiras que os demais terão que superar.
A força do líder vem do fato de que ele teve uma revelação única e que deverá ser passada aos poucos. O argumento é que nem todos estão preparados para tamanho impacto de tudo aquilo que vem pela frente.
O líder teve a visão de algo especial que lhe outorgou uma autoridade suprema: um teste de como decifrar algo, uma provação física, um dilema moral e até fenômenos inimagináveis. Vale tudo.
Aquilo é repetido à exaustão pelos seguidores, raras vezes pelo líder – afinal, ele não pode se autoproclamar “o enviado”. Os privilegiados serão aqueles que fazem um sacrifício maior que os demais para receber os ensinamentos da própria fonte superior. Essa mentalidade de informação secreta já foi utilizada pela realeza e, até hoje, é utilizada por partidos políticos ou empresas – informação privilegiada custa bem caro. Além disso, cria uma pirâmide de interesse auto-renovável. Os que estão na base querem subir um pouco; os que subiram um pouco mais também até chegar ao líder. Os imediatos se forem corajosos e espertos, sacam qual é a brincadeira e criam sua própria comunidade. Por isso é importante ter também uma hierarquia de sub-líderes, o que fará com que os seguidores comuns desejem “subir de carreira” espiritual com mais afinco e cedendo tudo de si.
***
O ponto é que essa fórmula mágica pode ser usada por seitas, religiões, partidos políticos, times de futebol, empresas e, pasmem, sua família. É um modelo generalizado que se difundiu e que funciona porque é baseado nos sentimentos de culpa, medo, mérito e sacrifício. Enquanto nós vivermos baseados neste paradigma, será difícil alcançar uma visão alternativa de funcionamento social. Democracia legítima e co-construção de ideias que façam avançar de verdade são coisas trabalhosas. Não tenho uma ideia do que seria algo realmente saudável, mas posso dizer que qualquer sujeito com um pouco de disposição pode causar mais prejuízo do que benefício ao arrastar pessoas vulneráveis num caminho de alienação e pouco entendimento da vida.

Autor do texto:
Sonhador nato, psicólogo provocador, escritor de um não best-seller e empresário. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas medita, faz dança de salão, lava pratos e escreve no blog Sobre a vida. No twitter é@fredmattos.




Originalmente em: http://papodehomem.com.br/como-construir-uma-religiao-em-7-passos/



08/06/2011

Respondendo à uma mensagem de uma pessoa muito querida...

Oi, querida! Que bom falar com você!


Bom, não pude deixar de notar que você comentou minhas opções "não religiosas" e tenho umas observações a fazer: Em primeiro lugar, quero te dizer que respeito e entendo as opções religiosas que as pessoas fazem, só não concordo com elas. Vc fala sobre "perder a inocência da criança amada pelo pai", claro, tendo em conta a SUA ótica cristã. Quero que saibas que te entendo e até agradeço o que vc julga ser preocupação, em função de vc acreditar que exista um "deus". Agradeço mesmo. Mas veja, Cresci em um meio MUITO evangélico, fiz seminários, estudei Teologia, convivi com "teologias da libertação", "da cura", da "prosperidade" a vida toda. Vi tudo isso, e sim, vc não sabe, infelizmente, pela nossa distância, como eu sou um sujeito que estudo MUITO, tudo em que me envolvo... Estudei Escatologia, Anjeologia, e todas as outras "gias" que o curso de Teologia do SEMINÁRIO TEOLÓGICO das ASSEMBLEIAS DE DEUS e o SEMINÁRIO BATISTA EQUATORIAL tinham para me oferecer. Fui professor de escola dominical, fui músico da banda da igreja, solista do grupo de jovens... ou seja, não sou um "incauto". Se cheguei às minhas conclusões sobre a vida, foram baseadas em MINHA experiência de vida e em tudo o que vi, ouvi e estudei sobre tudo isso. O fato: Assim como as pessoas tem o direito de acreditar em deus, em papai noel e coelhinho da páscoa, alguns, como eu, tem o direito de não acreditar. Acredito sim, no mundo FÍSICO das coisas REAIS e PROVADAS, das coisas que a CIÊNCIA pode provar com experiências que podem ser REPETIDAS com igual sucesso. Creio no poder de transformação do SER HUMANO, que quando decide fazer o CERTO, pode ser a maior e melhor força da Natureza.


Não acredito em nenhum "deus" invisível, que precisa da IMAGINAÇÃO das pessoas para existir... A fé, querida já na essência, é o "Firme fundamento das coisas que não se VÊEM, mas que se esperam", segundo a bíblia. Isso, não é o bastante pra mim, entende? Sou um homem do Século XXI, sou um livre pensador, simplesmente humano e limitado, MAS QUE ACREDITA EM SEU POTENCIAL DE MUDAR O MUNDO, mesmo que apenas uma pequena parte de cada vez... Não quero ofendê-la de forma alguma, por favor entenda. Por isso não entrarei no mérito das coisas que a bíblia diz e que são IMPOSSÍVEIS, além de contraditórias... Mas é como eu digo... Acho que cada ser humano tem que encontrar o seu caminho, e ser feliz nele...


O que não entendo é o PORQUE do cristão ocidental, no geral, se achar MELHOR que todos os outros "crentes" do mundo... Quer dizer, então cristo é mais legal que buda? que khrisna? que aláh?? "Se com teu coração creres e com tua boca confessares que cristo é o teu senhor, serás salvo" Então TODO O RESTO DA HUMANIDADE VAI PRO "INFERNO"?? E não adianta dizer que "são religiões diferentes mas é o mesmo deus" PQ NÃO É! O judaísmo, por exemplo, ainda espera a 1º VINDA DE JESUS! pq pra eles, é inaceitável um SALVADOR que tenha nascido em um "estábulo".


MILHARES de questões, e nada discutido. O que me deixa mais triste nas religiões é justamente isso... o mecanismo de "blasfêmia" que foi instalado, que impede as pessoas de se questionarem sobre essas coisas todas, e tantas outras, pq "já que deus é onisciente, vai saber o q eu to pensando e me mandar pro inferno"!! como isso não é uma tradição do medo? "Eu sou o deus que imputa o pecado dos pais nos filhos, até a 3ª e 4ª geração daqueles que me aborrecem" que deus é esse??? cristo teria vindo para me livrar dos meus "pecados".. que pecados são esses?? que imputabilidade hereditária é essa??? Enfim... Como eu te disse, não quero entrar no mérito, mas acredite, minhas convicções não são modismo nem alienação. Não cheguei à elas porque algum pastor me disse pra acreditar sem questionar nada. Não tenho medo de pensar, de perguntar, de pesquisar... De onde vem as coisas, as respostas, as perguntas... A religião resolve isso de forma simples "As coisas descobertas são para nós e nossos filhos, e as encobertas, apenas para deus"... o máximo que alguém vai descobrir é que "deus veio de parã", onde quer que seja isso! E o que me deixa mais estressado com essa ideia de um deus cristão, é o desprezo que "ele" mostra pelo homem, na medida em que diz "Eu sou aquele que está assentado sobre o globo da Terra, cujos habitantes são para mim como gafanhotos, e sua sabedoria, como trapo de imundície..." como poderia EU aceitar ser tratado assim??


Há muitas outras questões, como por exemplo, as modificações feitas na biblia, nos séculos XVII e XVIII pelo padre Gregório e outros, por questões totalmente políticas, para não perder mais fiéis para a Reforma nem seus bens... Daí a politica do "trazei todos os dízimos à minha casa, assim teremos mantimentos, diz o senhor"... sem falar nas CRUZADAS e em todo o sangue derramado em nome de deus... Enfim, volto a dizer, poderia te falar de MILHARES de razões para pensar com penso, mas diferente dos "crentes", não fico tentando "converter" ninguém a pensar como eu... Apenas acho que o mesmo direito que tem um crente de postar seus videos, scraps e todo o tipo de "mensagem" promovendo seu "deus" e sua fé, também tenho de postar coisas que acho interessantes, sempre no intuito que alguém PENSE sobre essas coisas. não quero "fazer a cabeça" de ninguém, como os crentes em geral fazem, usando a desculpa do "ide e pregai a todos os povos"... Apenas me reservo o direito de pensar com uma cabeça diferente da maioria, e sempre sou apedrejado por isso. Mas não ligo, não... Acho apenas que as pessoas deveriam se questionar mais. Sua fé, suas convicções, suas vidas, SUA LÓGICA...


Quando por exemplo, alguém diz que deus curou suas filhas, tenho CERTEZA que seja o que quer que tenha acontecido, essa pessoa as levou AOS MÉDICOS... tenho certeza que foram atendidas e medicadas e esse é um dos meus pontos.. Não aceito alguem dizer que é uma obra de deus quando uma equipe de médicos, pessoas que estudaram por 6 anos, fizeram mais 2 anos de residência médica, se especializaram, junto com anestesistas e assistentes, todo mundo que batalhou e ralou MUITO pra estar ali e poder salvar nossas vidas, e simplesmente as pessoas dão o crédito a um deus... Acho MUITO injusto, juro... Dai vem alguém dizer: "mas e não foi deus quem deu a inteligencia para eles?" NÃO!! Foram os GENES e o ESFORÇO das horas acordado estudando e todo o trabalho que se tem em uma academia de estudos superiores. Não há milagre aí. Só talento e esforço. Outra coisa que me deixa muito desconfiado é isso.. Porquê os "milagres" nunca ocorrem na presença de um cético?? Um cara desconhecido levantar de uma cadeira de rodas numa igreja qualquer da vida é fácil... Até os golpistas do sinal de trânsito fazem isso... Quero ver é deus remendar um amputado, ali, na minha frente!!!! Quero ver um braço ou uma perna surgir do nada!! E não me diz que não dá, porque afinal, esse não é o deus do "impossível"?? Enfim...


Entenda: respeito o seu direito a acreditar no que vc quiser, assim como os nossos pais e resto do mundo todo... Apenas entenda que não posso concordar com vocês... O que de toda forma, não muda nada pra mim... Não sou cristão, mas tento ajudar todo mundo, da melhor forma que posso. Sigo sempre no caminho do bem, sendo produtivo e tentando ser consciente e fazer um futuro melhor. Tento ser sempre o melhor ser humano que consigo... Não sei se não acreditar em "deus" me faz MESMO uma pessoal ruim, do mal... Espero que não!!


Fique bem.


Guilherme Castelo

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